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As paixões tristes

Na ordem cósmica do mercado, como são os técnicos a ser chamados a governar a crise dos Estados para pôr em ordem a economia, também devem ser considerados «técnicos» aqueles a quem é confiado o tratamento da crise psicológica que deriva da falência individual. As paixões do cosmos neoliberal são, de facto, tristes: frustração, impotência e inadequação são os sentimentos predominantes, dependentes de uma performance que não produziu o lucro esperado pelo mercado, ou de uma avaliação negativa das skills que um investimento individual insuficiente não conseguiu tornar competitivas. É, pois, como «técnicos da crise» que os psicanalistas e psicoterapeutas Miguel Benasayag e Gérard Schmit se sentem considerados pela sociedade, e perguntam-se: «Existirá hoje uma real incapacidade de assumir uma situação de angústia, porventura ampla e generalizada, sem considerá-la, acima de tudo, um problema da técnica?» Segundo os autores de Les passions tristes [As paixões tristes], as crises psicológicas sobre as quais, enquanto técnicos, são chamados a intervir constituem, na realidade, «crises na crise», crises individuais no seio de uma ordem do mercado neoliberal que faz do juízo algorítmico - krisis significa, em grego, juízo - a sua arte de governo. Logo, o papel do técnico que se ocupa das crises psicológicas não é o de ajudar as pessoas a sair da crise; ele deve conten­tar-se, antes, em «estabilizá-las na crise»; apenas pode «remediar as emergências, porque a crise se tornou a sua condição permanente».

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