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Jesus

Primeira sequência de Fairytale. Jesus e Estaline repousam lado a lado, num canto do purgatório. Estaline deitado no meio de uma montanha de rosas, Jesus num catre de pau tosco. Ambos aguardam que Deus decida o destino de cada um. O ditador levanta-se e caminha, mas o Salvador, de ar débil e abatido, não consegue mexer-se. «Dói-me tudo», diz ele, numa voz abafada de tísico. O filho de Deus Pai, de Aleksandr Sokurov, parece tirado a papel químico do Jesus imaginado por Oscar Panizza, o personagem mais triste e patético de O Concílio do Amor.

JESUS
(estremecendo)
Pois é — e com isso, nós é que vamos ficando cada vez mais miseráveis, cada vez mais fracos! Que coisa horrível!
(Tosse.)
A mim comem-me, e assim se vêem livres da doença e do pecado! Ao passo que nós caminhamos progressivamente para o declínio. Começam, primeiro, por se encherem de pecados até mais não poder, e a seguir ingerem a minha carne e ficam curados, inocentes, gordos e anafados — enquanto nós para aqui estamos magros e famélicos! Que raio de papel este que temos de representar! Gostaria, que, ao menos uma vez, se invertessem os papéis, e eu pudesse comer à minha vontade, vendo-os estoirar de fome!
(Acomete-o um acesso de tosse.)

Tradução de Luísa Neto Jorge.

Comentários

jose disse…
De Jesus pode fazer-se gato-sapato. Mas o Pai dos Povos no Purgatório,vem há muito perdendo qualidades esse Purgatório.Mesmo sob a pena ou lente dos Maiores.