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Optimistas com a morte na alma


(...) A autoridade tem de assentar em algum mistério ou fundamento irracional para se manter? A «direita» diz que sim, a «esquerda» diz que não. Diferença puramente ideológica; na verdade, qualquer ordem que quer durar só o consegue através de uma certa obscuridade envolvente, do véu que lança sobre as suas motivações e actos, de um tudo-nada de «sagrado» que a torna impenetrável às massas. Trata-se de uma evidência que os governos «democráticos» não podem reivindicar, mas que, em contrapartida, é proclamada pelos reaccionários: indiferentes à opinião e ao consentimento das multidões, eles proferem sem pejo truísmos impopulares, banalidades inoportunas. Os «democratas» escandalizam-se, embora saibam que muitas vezes a «reacção» traduz os seus pensamentos mais recônditos, dá voz a alguns dos seus desenganos íntimos e a muitas certezas amargas que não podem declarar publicamente. Encurralados no seu programa «generoso», não lhes é permitido demonstrar o mais pequeno desprezo pelo «povo», nem sequer pela natureza humana; como não têm o direito nem o privilégio de invocar o Pecado original, vêem-se obrigados a poupar e a bajular o homem, a querer «libertá-lo»: optimistas com a morte na alma, dilacerados entre fervores e sonhos, arrebatados e paralisados ao mesmo tempo por um ideal inutilmente nobre, inutilmente puro. Quantas vezes, no seu foro íntimo, não devem invejar a desfaçatez doutrinária dos seus inimigos! O desespero do homem de esquerda é combater em nome de princípios que lhe proíbem o cinismo.

Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

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