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Reflexão

Atribuir um significado ao processo histórico, fazê-lo surgir de uma lógica imanente ao devir, é subscrever, mais ou menos explicitamente, uma forma de providência. Pelo próprio facto de conferirem um sentido aos acontecimentos, Bossuet, Hegel e Marx pertencem à mesma família ou, pelo menos, não diferem uns dos outros no essencial; já que o importante não é definir ou determinar esse sentido, mas recorrer a ele, postulá-lo – e é isso que eles fazem. Passar de uma concepção teológica ou metafísica para o materialismo histórico é simplesmente mudar de providencialismo. Se nos habituássemos a olhar para além do conteúdo específico das ideologias e das doutrinas, veríamos que reivindicar uma em vez de outra não implica, de modo algum, nenhuma demonstração de sagacidade. Os que aderem a um partido acreditam que se distinguem dos que seguem outro quando, na realidade, desde o momento em que escolhem, todos convergem na essência, participam da mesma natureza e diferem apenas em aparência, pela máscara que assumem. É loucura imaginar que a verdade reside na escolha, quando toda a tomada de posição equivale a um desprezo pela verdade. Para nossa desgraça, a escolha, a tomada de posição, é uma fatalidade à qual ninguém escapa; todos nós temos de optar por uma não-realidade, por um erro, convencidos à força de que estamos doentes ou febris: os nossos assentimentos, as nossas filiações são outros tantos sintomas alarmantes. (...)

 Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

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