Já não me lembro por que motivo certo dia recebi a visita de um banal funcionário. O seu ar a um tempo estranho e vulgar intrigou-me. Falámos disto e daquilo. Depois, a discussão centrou-se na situação da França, que o meu interlocutor achava deplorável. «Entre nós, nada funciona – disse-me ele. – E sabe porquê? Eu digo-lhe: é por causa do vinho. E digo-lhe mais: nas minhas horas vagas, dedico-me à gramática. Pois bem, o nosso pretérito imperfeito do conjuntivo é estúpido e inútil. Os ingleses não o têm; eles não bebem vinho!» Estaria perante um louco? Abordámos outros temas: catolicismo, inflação, colónias. Ele tinha resposta para tudo: possuía uma ideia. O vinho, pela primeira vez na história, era elevado à dignidade de um princípio de explicação universal.
Enquanto o meu visitante me explicava o seu sistema, eu pensava em... Hegel, na sua forma de recorrer, em qualquer circunstância, aos bons ofícios do Espírito. Pensava também que um sistema não era senão a vitória de uma panca, um cavalo de batalha infinito. Seja o vinho, seja o espírito, a ilusão é igualmente grande nos dois casos. Assim como Hegel, o meu interlocutor sentia a necessidade de ter uma visão coerente do mundo; tinha espírito filosófico: não podia viver sem um universo à sua medida, nem tão pouco sem a euforia do sistema. Então, para quê contradizê-lo? Para quê perturbar a sua felicidade? Por isso, acabei por lhe fazer os maiores elogios, por me extasiar com os resultados das suas pesquisas e reflexões, e quando se levantou para ir embora, todo contente, não senti por ele piedade, mas inveja.
Emil Cioran. Texto da Biblioteca Literária Jacques Doucet (redigido em francês entre 1940-50), incluído em Cahier de L’Herne Cioran (2009).
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