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Bairro

Ontem, na antestreia de «Vitalina Varela», no Trindade, não havia uma pessoa negra na plateia. Era uma sala branca, burguesa, vagamente caviar. Depois do filme e das fotos para o instagram, toda a gente saiu para beber um copo, reservar mesa no restaurante, e trocar umas ideias sobre a Vitalina e o Ventura. Eu incluído.

Comentários

c disse…
Nestas sessões especiais parece sempre que o filme não chega aos destinatários. Mas quem são os "destinatários" de "Vitalina Varela"?
c disse…
Como não tenho nada para fazer, pergunto e respondo.

O que Jean Genet escreveu sobre as esculturas de Giacometti (que se destinam ao povo dos mortos) talvez se possa dizer sobre os últimos filmes de Pedro Costa? Genet era gajo para escrever um texto lapidar sobre Vitalina, não?



Acho que não há uma resposta certa para isto. Fico com a sensação de que uma parte da injustiça que o filme, digamos, denuncia (“Este país não tem nada para ti. Volta para a terra.”) se prolongou naquela sala. E claro que isto acontece quase sempre quando o tema ou, neste caso, os "actores", a sua condição, resulta de uma série de injustiças de que todos, mais ou menos, somos responsáveis. Será que a Vitalina alguma vez entraria no Trindade se não fosse através da tela? Será que a veríamos se nos cruzássemos com ela na rua? Será que lhe falaríamos se partilhássemos um lugar no autocarro?
c disse…
Sentes mais isso porque era uma sessão especial. Prefiro sempre ver os filmes em sessões vulgares. Em Lisboa, quando lá fui, havia uma senhora muito bem vestida e muito perfumada que prejudicou a sessão com esse cheiro (nem sequer era perfume da zara).

Percebo o que estás a dizer e tens razão.

Por outro lado:
“Vitalina Varela” é para mim, disso não abdico. Vejo muitas mulheres como Vitalina, sentam-se ao meu lado no autocarro. Ouço os desabafos. Falava mais depressa com Vitalina, do que com a tal senhora perfumada de Lisboa ou com críticos de cinema. Aliás, queria saber que comida é que ela fez naquela cena do Ntoni e da Marina.
Estou de acordo contigo, claro. O que digo é que toda aquela beleza é perturbadora. Os planos do bairro são de uma beleza difícil de explicar. Mas é um bairro sem quaisquer condições, uma espécie de labirinto, de círculo fechado, de onde ninguém consegue sair. As pessoas não escolheram viver ali, foram empurradas. E foram empurradas para ali, de certa forma, por todos nós, os que vemos o filme. Os que podem ver o filme. Os que foram educados ou puderam educar-se a si mesmos a frequentar o cinema. Os mesmos que saem da sala, como eu, esmagados e com a sensação de que acabaram de assistir a uma obra-prima. Mas em que é que isto ajuda aquelas pessoas? O que é que isto muda?

A arte não tem de ter nenhum objectivo. A arte é apenas arte. Será?
c disse…
Em termos sociais, o poder da arte é quase nada. O filme alterou a vida de Vitalina e de mais uns quantos; ela já não é a mesma. Mas não pode mudar a vida do bairro.

E o filme mostra-nos um bairro lunar, que não existe. A verdade fora de campo é muito mais violenta.
"A verdade fora de campo é muito mais violenta." Sim. É isso.