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Na Provença à procura da orelha de Van Gogh

Na Provença à procura da orelha de Van Gogh
Essa orelha que nem o amor criterioso da honrada família
Conseguiu preservar do esquecimento,
Pobre orelha a que mais ninguém ligou
E que está se calhar esperando o seu dono
Que não volta,
Nessa Provença é que eu estou.
A verdade é que nem eu a encontrei,
Mas, também, como os outros, não perdi muito tempo a procurá-la.
Salvem-se os quadros, vendam-se os quadros
Guardados pela criteriosa família
E até por descuidados provençais - é o essencial.
A orelha, que se lixe, não se pintam quadros com orelhas.
As orelhas são para os músicos, e mesmo esses,
Às vezes já só tocam música interior.

Vicente, meu velho, em verdade te digo,
Que por aqui as plantas andam a tentar imitar-te
E, tantos anos depois, ainda não conseguiram.
Elas bem se torcem, elas bem chamam o sol,
Que todo se estremece,
Elas bem se encostam ao céu,
Elas bem se verde, elas bem se azul, elas bem se amarelo.
Eu sei, eu sei, Vicente, muito te custou,
Talvez até o amor do teu irmão,
Um desses amores de que a gente não consegue livrar-se.
E as mulheres, Vicente, tão muros,
E o amor,
Esse amor de que a gente não consegue livrar-se!
Mas que queres? Ficou a tua obra.
És famoso e os teus quadros atingiram verdadeiras cotações.
Sofreste, pois sofreste: quem não sofre?
Também o Miguel Ângelo apanhou aquele jeito nas costas
E quantos poetas não têm agora tendinites no pulso?
Aguentasses, rapaz, aguentasses.
O mundo não está para os líricos -
E desde já te digo:
Escusas de mandar mais orelhas.

Manuel Resende, Poesia Reunida.

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