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Não sei resumir-me

- Que pretendeu então exprimir com as suas interrogações?
- Pois bem, para aqueles que nunca me leram, e são muitos, quis exprimir o desconforto da existência, a separação do homem das suas raízes transcendentais; quis exprimir igualmente que, mesmo enquanto falavam, os homens não sabiam o que queriam dizer e que falavam para não dizer nada, que a linguagem, em vez de os aproximar uns dos outros, não faz senão separá-los ainda mais; quis traduzir o carácter insólito da nossa existência; quis parodiar o teatro, isto é, o mundo, e o que escrevi foi em parte, evidentemente, uma paródia, talvez mesmo a paródia da paródia; enfim, que quer que lhe diga, quis dizer o que quis dizer e, umas vezes bem, outras vezes mal, disse-o, e muitas outras coisas ainda que estão nos meus livros. Como vê, não sei resumir-me.

Eugène Ionesco, numa entrevista publicada como apêndice a O Solitário. Tradução de Luiza Neto Jorge.

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