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Traduzir Macedonio

Regresso a Macedonio Fernández. É a terceira vez em largos anos que tento «traduzir» um dos seus livros. Desisti duas vezes quando já tinha «passado» para português muitas dezenas de páginas. É o autor mais difícil que conheço. O Macedonio escreve propositadamente mal: inventa termos que às vezes roçam o mau gosto, repete palavras e ideias sem nenhuma necessidade, usa uma pontuação displicente, estica as frases até ao limite do suportável, e finge embrulhar as histórias em sistemas filosóficos muito peculiares. Este género de escrita «desajeitada», «canhestra», que em Roberto Arlt é talvez involuntária, é uma escolha, uma questão de estilo em Macedonio. Um estilo que no original tem uma potência explosiva e que em português parece confuso, errático, impossível de acompanhar. Acontece o mesmo nas poucas traduções que existem para outras línguas. É difícil o tradutor resistir à tentação de torcer o texto para «soar melhor» ou torná-lo «mais compreensível». Enfim, nada é certo numa tradução de Macedonio. A única certeza é a de um redondo fracasso.

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