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Mensagens

Paixão

Quando o repórter Amado Ribeiro descreve ao delegado Cunha o beijo que Arandir deu na boca do rapaz atropelado, a personagem usa duas vezes a palavra «ajoelha-se» . Mais à frente, Aprígio, o sogro de Arandir, descrevendo à filha o mesmo episódio, que também ele testemunhara, repete a palavra: APRÍGIO ( realmente confuso ): Teu marido correu na frente de todo o mundo. Chegou antes dos outros. ( com uma tristeza atônita ) Chegou, ajoelhou-se e fez uma coisa que até agora me impressionou pra burro. SELMINHA: Mas o que foi que ele fez? APRÍGIO ( contido na sua cólera ): Beijou. Beijou o rapaz que estava agonizante. E morreu logo, o rapaz. Não é um acaso, com certeza, mas um gesto símbólico que Nelson Rodrigues quer sublinhar. Um gesto que tem algo de sagrado: o momento em que a vida e a morte dão um beijo na boca; em que mundos opostos, o verso e o reverso, se tocam através de um sopro. Arandir ajoelha-se sobre o rapaz atropelado, toma-o nos braços, beija-o, e a realidade, como num milag...

De acordo com o ladrar dos cães

Que espécie de linguagem é a linguagem de Strauch? O que hei-de fazer com as suas lascas de pensamento? O que a princípio me parecia desarticulado, desconexo, possui os seus «nexos realmente espantosos»; no seu todo, é uma aterradora transfusão de palavras para o mundo, para as pessoas, «um processo impiedoso movido contra a estupidez», para o dizer com as suas palavras, «uma ininterrupta cadência de fundo que merece regenerar-se». Como anotar? Que tipo de notas? Até que ponto algo de esquemático, de maneira sistemática? Estas irrupções abatem-se sobre mim como derrocadas de pedras. De repente, o que ele está a dizer começa outra vez a partir-se face ao grito explosivo do ridículo que engendra para si próprio «e para o mundo». A linguagem de Strauch é uma linguagem do músculo do coração, que «palpita contra as pulsações do cérebro», malévola. É uma auto-humilhação rítmica cativa da «viga crepitante do seu próprio ouvido interno». As suas ideias, os seus ardis, estão basicamente de ac...

O Príncipe Desencantado

AMADO: Olha. Agorinha, na Praça da Bandeira. Um rapaz foi atropelado. Estava juntinho de mim. Nessa distância. O fato é que caiu. Vinha um lotação raspando. Rente ao meio-fio. Apanha o cara. Em cheio. Joga longe. Há aquele bafafá. Corre pra cá, pra lá. O sujeito estava lá, estendido, morrendo. CUNHA ( que parece beber as palavras do repórter ): E daí? AMADO ( valorizando o efeito culminante ): De repente, um outro cara aparece, ajoelha-se no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do atropelado e dá-lhe um beijo na boca. O Beijo no Asfalto , à boa maneira walseriana , começa com um acontecimento que é o avesso de um conto de fadas. Na Bela Adormecida , o Príncipe quebra o encanto e desperta a princesa do seu sono profundo – imagem da morte, diziam os antigos – com um beijo. Na peça de Nelson Rodrigues, o beijo que Arandir pousa na boca do rapaz atropelado sela a morte deste. Quem desperta de um indolente e tranquilo sono da existência é Arandir. O beijo dado ao moribundo, em pleno asfalt...

O Grande Macho

Leio no jornal que o Vaticano impediu, mais uma vez, o acesso das mulheres ao diaconado. Na opinião das autoridades católicas, «a masculinidade de Cristo» pressupõe que «a masculinidade daqueles que recebem a ordem não é acidental, mas parte integrante da identidade sacramental». Por outras palavras, Deus escolheu ter um filho e não uma filha. E não um filho qualquer, mas o Grande Macho Universal. Com o maior pénis do cosmos e de toda a eternidade. Ora, só os sacerdotes e diáconos católicos «homens» têm qualquer coisa vagamente parecida com isso. Ainda que uma coisa muito mais pequena. Porque o tamanho do «sacramento» importa, como é óbvio.

Ácido nítrico com láudano

A fé iluminista na razão, nos factos da ciência e no progresso técnico, revelou-se manifestamente exagerada. O mistério nunca desapareceu, as emoções mais profundas estão vivas, os velhos demónios divertem-se. O edifício racional está sempre esburacado: basta um pequeno nada para que tudo se desfaça em pedaços. A luz e a sombra, o bem e o mal, são o verso e o reverso da existência. Isto dito assim é um truísmo. E, no entanto, ainda somos capazes de nos chocar com as histórias de Nelson Rodrigues . Muitas delas, de resto, inspiradas em casos concretos publicados nos jornais ou que o autor conheceu, na primeira pessoa, enquanto repórter policial. Neste ponto, tudo parece uni-lo a Félix Fénéon. Certas «notícias em três linhas» podiam ser sinopses de peças ou romances de Rodrigues: A mulher deixara-o. O Sr. Bassot, de La Garenne-Colombes, tentou asfixiar-se com carvão vegetal. Está à morte em Beajoun. Os jogos de amor em Béziers: Corniod, que vivera sete anos com Rosalie Petit, trespassou...

A frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro

Para Maistre, essa força ganha um sentido, torna-se verdadeiramente a Providência, a partir de um milagre, a Revolução: «se no coração do inverno e diante de mil testemunhas um homem ordenar a uma árvore que se cubra repentinamente de folhas e frutos e a árvore obedecer, todos clamarão milagre e inclinar-se-ão diante do taumaturgo. Mas a Revolução Francesa e tudo o que se passa neste momento é, no seu género, tão maravilhoso como a frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro…».   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

Dos jornais XXXXV

Bresson continua a rondar a nossa vida.  

Este não é teu rosto

VIZINHO ( numa mesura ): Às suas ordens. D. EDUARDA ( apontando para o rosto do vizinho ): Mas este não é teu rosto – é tua máscara. Põe teu verdadeiro rosto. VIZINHO: Com licença. ( O vizinho põe uma máscara hedionda que, na verdade, é a sua face autêntica. ) D. EDUARDA: Agora fala. Nelson Rodrigues, Senhora dos Afogados .

Influenciadores do século XX

Raquel Soeiro Brito.

Rindo chorando

As personagens de Nelson Rodrigues riem quando choram, e choram quando riem. Os moralistas não têm moral, os beatos e as beatas não são santos nem santas, os castos estão «roucos de desejo», os pulhas não são «canalhas integrais», os poderosos (pequenos ou grandes) não são inocentes e os criminosos têm uma certa candura. O que os une é o medo. O grande medo, o medo da morte: fonte da vida, íntimo combustível para a imaginação e o prazer.

Betinha malvada (isn't she lovely)

Uni, duni, tê, salamê minguê, um sorvete colorê, uni, duni, tê.

O negócio é o seguinte

Não é o que sabemos sobre nós próprios, mas o que preferimos não saber, o que tentamos desesperadamente esquecer. É sobre isso que Nelson Rodrigues escreve. Uma luz fria apontada ao escuro. Tudo o que está na sombra desvela-se na sua mais crua nitidez: todas as “pequeninas tatuagens”, obsessivas, impossíveis de apagar.

Uma canção-manguito para o Ministro da Presidência

 

Influenciadores

Mareme Niang.

Costumávamos ter medo do patrão

 «Eu não quero cá o patrão. Para me explorar, não quero cá o patrão. Assim estou mais feliz. Ele que não venha que não me faz falta, nem a mim nem às minhas colegas, porque eu agora ganho quatro contos e trabalho, mas no tempo do patrão trabalhava o dobro e ganhava só um conto e oitocentos por mês, por isso eu não quero cá o patrão. Não quero!» Outro País, de Sérgio Tréfaut.