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Um dia perfeito para traduzir «Urgência do deserto»


29 de Outubro 
Acabo de escrever um pequeno texto sobre – ou melhor, contra – a imagem para uma obra colectiva que podia ser assinado pelo mais ortodoxo dos crentes. E, no entanto, nunca estive tão longe de uma conversão ao que quer que seja. Trata-se de um «acesso» místico, de um estado febril que de vez em quando toma conta de mim. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972


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Urgência do deserto 

O espírito que se volta para a nudez sente repugnância pelos fingimentos que lhe recordam este mundo do qual se quer separar. Não conhece senão exaspero diante do que existe ou parece existir. Quanto mais se desviar das aparências, menos necessitará dos sinais que as realçam ou dos simulacros que as denunciam, ambos nefastos à procura do que importa, do que se esquiva, desse fundo último que exige, para ser apreendido, a ruína de toda a imagem, mesmo espiritual. Privilégio maldito do homem exterior, a imagem, por mais pura que seja, conserva um resquício de materialidade, um tudo-nada de rugosidade e, como remete necessariamente para o mundo, comporta por isso mesmo um elemento de incerteza e desassossego. Só com uma vitória sobre ela se poderá abrir caminho para o ser nu, para essa segurança sem amarras que se chama libertação. Na verdade, libertar-se é despojar a imagem, despir-se de todos os símbolos cá de baixo. 

Não nos livramos da imagem se, pelo mesmo movimento, não nos livrarmos da palavra. Toda a palavra equivale a uma mácula, toda a palavra é um atentado à pureza. «Nenhuma palavra pode esperar outra coisa senão a sua própria derrota», proclama Gregório Palamas na sua Defesa dos Santos Hesicastas. A esse fundo para lá das aparências, só se acede graças ao silêncio, o silêncio que Serafim de Sarov dizia que tornava o homem semelhante aos anjos. 

Coisa digna de nota: não há silêncio frívolo, silêncio superficial. Todo o silêncio é essencial. Quando o saboreamos, experimentamos automaticamente uma espécie de supremacia, uma estranha soberania. É possível que aquilo que designamos por interioridade não passe de uma espera muda. De resto, não há «vida verdadeira», vida espiritual propriamente dita, que não implique a morte da imagem e da palavra, a destruição, no mais íntimo do ser, deste mundo e de todos os mundos. No seu extremo, a experiência mística confunde-se com a beatitude de uma suprema recusa. 

Perseguir, farejar a imagem, é provar que permanecemos aquém do absoluto e somos impróprios à visão pura. Compreende-se: essa visão não é tanto sem objecto, mas para lá de qualquer objecto. Poder-se-ia até dizer que o que ela nos permite ver é a ausência sem limites de tudo o que pode ser visto, a nudez como tal, a vacuidade como plenitude ou, melhor ainda, esse «abismo da superessência» celebrado por Ruysbroeck. 

De todos os que procuram, apenas o místico encontrou; mas o preço a pagar por um favor tão excepcional é que nunca poderá dizer o quê, embora possua a segurança que só o saber intransmissível confere (o verdadeiro saber, em suma). O caminho que ele nos convida a seguir conduz a uma vacuidade sem precedentes, mas – e isso é que é maravilhoso – uma vacuidade que nos preenche pois substitui-se a todos os universos abolidos. Do que se trata aqui, então, é da empreitada mais radical que já foi tentada para nos ancorarmos em qualquer coisa de mais puro do que o ser ou a ausência de ser, em qualquer coisa superior a tudo, ao próprio absoluto. 

O saber que vem das aparências é um falso saber ou, se se preferir, um não-saber. Para o místico, o conhecimento, no verdadeiro sentido, no último sentido da palavra, reduz-se a uma ignorância «translúcida». «Aqueles que convivem com essa ignorância e a luz divina descobrem em si mesmos algo como uma solidão devastada», diz Ruysbroeck. 

Partindo dessa solidão, facilmente se compreenderá a necessidade, a urgência do deserto, espaço propício à fuga para a ausência de imagens, para um despojamento inaudito, para uma unidade nua, para a Deidade mais do que para Deus. «A Deidade e Deus, afirma Mestre Eckhart, são tão distintos como o céu e a terra. O céu está milhares de léguas mais acima. Assim como a Deidade em relação a Deus. Deus vem a ser e passa

Apegar-se a Deus é, como observou um comentador, permanecer «na orla da eternidade», não é penetrar na própria eternidade, à qual só se chega se nos elevarmos à Deidade. Ao inspirarmo-nos na tal «solidão devastada», como não evocar essa «oratio ignata», essa «oração de fogo» que, de acordo com um Padre dos primeiros séculos, só é possível quando estamos tão impregnados de uma luz lá de cima que nos é impossível continuarmos a usar a linguagem humana? 

Emil Cioran. Texto publicado em Variações sobre o Imaginário (Paris, Clube do Livro, 1972), incluído em Cahier de L’Herne Cioran (2009).

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