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O maior problema seria o estado do tempo

(...) Decidiu fazer as coisas à sua maneira. Reuniria um grupo de pessoas – não era preciso serem actores profissionais – e explicar-lhes-ia o que pretendia. Deixá-las-ia decidir o que iam fazer e dizer. Usaria apenas a luz disponível, o que implicava, supunha ele, que a maior parte do filme fosse rodada no exterior. Filmaria tudo num único dia, dois talvez. Se possível, não alteraria o que tinha filmado. Pensou nos lugares que as pessoas frequentavam ou em que era possível ver pessoas: as ruas, os parques, as praias. Ia usar esses lugares. O maior problema, imaginava ele, seria o estado do tempo.

Lembrou-se dos contos que tinha escrito anos antes, histórias sobre jovens em momentos de dilema e iluminação. Percebeu que estas histórias seriam o modelo para o seu projecto. Como tinham parecido vir da vida, achou que de certeza conseguiria recriá-las como experiências verdadeiras. Não admirava que a editora os tivesse rejeitado. Precisavam de ser reavivados por todo o terno desconhecimento da própria vida. Não queria realizá-los: queria vê-los a acontecer.

A economia e a simplicidade do método de G permitiram-lhe criar não apenas um filme mas uma verdadeira série. Nenhum destes filmes se distinguiu ou teve impacto. Fluíram tranquilamente para o mundo, parecendo integrar-se naturalmente na corrente da vida. Em cada um, desenvolvia-se uma situação sem principio nem fim evidentes. Durante um dia ou um punhado de dias, emergia, desabrochava e desvanecia-se. Por esta altura, G já tinha idade suficiente para saber que estas situações, estes desabrochares que, na juventude, parecem quase secundários para o desenvolvimento da intriga principal da vida, são afinal a própria vida. Era nesses momentos de esperança, expectativa e desilusão, de prelúdio, antes de a vontade optar por circunscrever o eu ao conformismo, que realmente vivíamos.

As pessoas repararam que os filmes de G costumavam girar em torno de uma jovem mulher que se esforçava por continuar a ser livre e verdadeira em face dos enganos e da atitude possessiva dos homens. Era com surpresa que ele reagia, uma e outra vez, à naturalidade com que os actores encontravam a linguagem – as condições morais – para este combate. Lá no fundo, as jovens mulheres sabiam que não tinham acesso à liberdade que desejavam. E, na verdade, os homens que compreendiam a necessidade que elas tinham de ser livres não eram os que elas desejavam.

Com estas pequenas tragédias pouco sofisticadas, G começou a deixar a sua marca. Mas, mesmo quando o sucesso chegou, manteve-se fiel aos seus métodos e secretismo. Ninguém sabia nada sobre a sua vida, o seu verdadeiro nome, o seu casamento e filhos, tão-pouco sobre a sua ligação ao polémico irmão. Ninguém sabia o que ele queria nem o que o motivava a trabalhar assim. Só sabiam o que ele via.


Desfile, de Rachel Cusk. Tradução de Alda Rodrigues. Relógio d'Água, Outubro de 2024.

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