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O Fogo do Vento é um magnífico exercício de liberdade. Em vez de seguir uma história sequencial, o filme de Marta Mateus avança segundo regras mais antigas, que sacodem o tempo como o vento. Durante a projecção, os quadros desdobram-se em mil caminhos diferentes: somos convocados a participar nessa montagem afectiva. Ninguém vê o mesmo, mas todos reencontramos algo de fundamental e eterno. 

O que mais me impressiona é a forma como as pessoas se deitam nas árvores. É certo que sobem para lá para escapar ao touro (magnífico signo de todas as coisas que oprimem, até do próprio cinema), mas depois aconchegam-se aos troncos e ramos, e o medo transforma-se em conquista. Cantam, dormitam, contam histórias passadas e pensam. (O rosto de alguém a pensar é das imagens mais belas que há, e o cinema tem o dever de o guardar.) Naquelas árvores, nasce uma comunidade aérea ancorada em memórias longínquas e futuras – um território novo cheio de visões. Só o touro está sozinho e derrotado.

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