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Mensagens

Andar de carro

A televisão do Piolho mostra imagens da destruição no Irão: depósitos de petróleo em chamas, colunas descomunais de fumo negro, prédios e casas em ruínas. Um oráculo dá conta do infame número de vítimas civis do ataque israelo-americano. Na mesa do lado, um tipo comenta as imagens, queixando-se do preço da gasolina: «Qualquer dia, não se pode andar de carro.»

Haverá algum dia uma última carta?

Acabei de rever a tradução de Sem Soleil , de Chris Marker; agora só me falta rever outra vez.

Molas da roupa

Nos últimos dias, as gaivotas têm-nos roubado, uma após outra, as molas da roupa. Arrancam-nas do estendal e levam-nas. Para onde? Para quê? Bibelots para decorar o ninho? Totens do deus das gaivotas? Às vezes, com o impulso, as hastes separam-se e fica apenas o arame da mola pendurado no fio, como a espinha de um peixe que foi prontamente devorado.

«As vísceras da alma e as sinopses do corpo»

Nota oficial do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, a propósito da morte de Lobo Antunes: «O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel lamenta profundamente a morte de António Lobo Antunes, vulto maior da literatura portuguesa. Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa.» 

Missão japonesa

Para a Diana. Sábado, por volta das 11h00. Boa Nova. Três raparigas e um rapaz, cada um com a sua máquina fotográfica. Riem-se, estão muito contentes. Aquele pedaço de terra junto ao mar é japonês. Aproximam-se da Casa de Chá. Uma das raparigas saca de um tripé, o rapaz vira-se para o lado e tira uma fotografia às chaminés da Refinaria da Galp – é um fã de Ozu.

Observações avulsas sobre o bonfim #78

Para o Hugo Miguel Santos, por supuesto. Descobri o avante! pendurado na montra da tabacaria, junto ao tal&qual. (A primavera espalha florzinhas espontâneas por todo o lado.) *** E agora, transformado em notícias: 1. Estilo «Actualidades» (Clássico e Conciso) TÍTULO: PRIMAVERA OPERÁRIA NA TABACARIA LOCAL Registou-se hoje um avistamento inusitado numa montra de tabacaria da Invicta: o histórico jornal Avante! foi encontrado ao lado do popular Tal & Qual . O fenómeno, sem precedentes conhecidos nesta localização, é atribuído por observadores locais aos efeitos da primavera, que parece estar a fazer brotar espontaneidade ideológica por todo o lado.  2. Estilo Sensacionalista (Tipo «Tablóide») TÍTULO: CHOQUE NA MONTRA: O MARTELO AO LADO DO ESCÂNDALO! Inédito! O jornal Avante! saltou da clandestinidade das prateleiras de baixo para o lugar de destaque, pendurado precisamente junto ao Tal & Qual . Os clientes não queriam acreditar no que viam. Especialistas em «fenómenos sa...

Pobreza de meios

Nunca me pareceu que a pobreza de meios, que é (pelo menos no meu caso) mais vezes uma questão de circunstâncias do que de escolha, pudesse fundar uma estética, e já deito as histórias do Dogma pelos olhos. É mais a título de encorajamento para jovens cineastas desprovidos de recursos que menciono estes pequenos detalhes técnicos: La Jetée foi realizada com uma máquina Pentax 24x36, e a única passagem filmada em «cinema», aquela que culmina no bater de olhos, com uma câmara 35 mm Arriflex emprestada por uma hora.  Sans Soleil foi filmado na íntegra com uma câmara Beaulieu 16 mm, muda (não há um único plano síncrono em todo o filme), com bobinas de 30 metros – 2’44’’ de autonomia! – e um pequeno gravador de cassetes – nem sequer um Walkman, que ainda não existia… O único elemento sofisticado – para a época – foi o sintetizador de imagem Spectre, também emprestado por alguns dias. Tudo isto para dizer que as ferramentas de base destes dois filmes estavam literalmente ao alcance de ...

Truca-truca e tuque-tuque

Um daqueles «estudos internacionais» que revelam coisas verdadeiramente importantes, «revelou» que o «Porto é a terceira cidade do mundo onde se faz mais sexo». Ah, que cidade de maravilha, surpresa e deleite! É pena que a avalanche turística tenha arruinado, para sempre, as velhas casas de prostituição. Que grande oportunidade de negócio se apresentaria agora aos nossos empreendedores: a rota típica dos velhos prostíbulos em tuque-tuque, com o apoio de guias especializados, vestidos de lingerie ou tanga, e oferta de um bilhete para a livraria Lello.  Enfim, resta-lhes produzir réplicas em plástico, como tudo o resto. Os turistas não percebem a diferença.

Sete em ponto

Nas tempestades de Fevereiro, o vento arrancou o número 7 do relógio da Câmara do Porto. Em lugar do número, ficou um buraco. Durante alguns dias, faltaram duas horas no tempo da cidade. Tudo o que aconteceu nas horas incertas das 7 da manhã e das 7 da tarde, não aconteceu. Ou aconteceu no Porto que existe noutro lugar.

Traduzir Macedonio

Regresso a Macedonio Fernández. É a terceira vez em largos anos que tento «traduzir» um dos seus livros. Desisti duas vezes quando já tinha «passado» para português muitas dezenas de páginas. É o autor mais difícil que conheço. O Macedonio escreve propositadamente mal: inventa termos que às vezes roçam o mau gosto, repete palavras e ideias sem nenhuma necessidade, usa uma pontuação displicente, estica as frases até ao limite do suportável, e finge embrulhar as histórias em sistemas filosóficos muito peculiares. Este género de escrita «desajeitada», «canhestra», que em Roberto Arlt é talvez involuntária, é uma escolha, uma questão de estilo em Macedonio. Um estilo que no original tem uma potência explosiva e que em português parece confuso, errático, impossível de acompanhar. Acontece o mesmo nas poucas traduções que existem para outras línguas. É difícil o tradutor resistir à tentação de torcer o texto para «soar melhor» ou torná-lo «mais compreensível». Enfim, nada é certo numa traduç...

A actualidade do teatro está no fazê-lo

Ricardo Braun, na mensagem semanal da Livraria Aberta, a propósito de um Tchékhov «actualizado» que está em cena, por estes dias, numa sala de Lisboa: «Ando nisto há mais de quinze anos (cada vez menos) e se há coisa que me enerva no teatro em Portugal, ou na maneira como se fala de teatro e se justifica o fazer-se e o ir-se ao teatro, é esta mania, esta necessidade de vender os espetáculos com palavras do jornal das oito. Como se houvesse outra opção no teatro que não fazê-lo aqui e agora. A atualidade do teatro está no fazê-lo. Se tivermos sorte, as pessoas que vão ao teatro são as mesmas que andam no resto da vida, no resto do tempo.» Mensagem completa aqui .

Tentação do sistema

Já não me lembro por que motivo certo dia recebi a visita de um pobre-diabo de um funcionário. O seu ar a um tempo estranho e vulgar intrigou-me. Falámos disto e daquilo. Depois, a discussão centrou-se na situação da França, que o meu interlocutor achava deplorável. «Entre nós, nada funciona – disse-me ele. – E sabe porquê? Eu digo-lhe: é por causa do vinho. E digo-lhe mais: nas minhas horas vagas, dedico-me à gramática. Pois bem, o nosso pretérito imperfeito do conjuntivo é estúpido e inútil. Os ingleses não o têm; eles não bebem vinho!» Estaria perante um louco? Abordámos outros temas: catolicismo, inflação, colónias. Ele tinha resposta para tudo: possuía uma ideia . Pela primeira vez na história, o vinho era elevado à dignidade de um princípio de explicação universal.  Enquanto o meu visitante me explicava o seu sistema, eu pensava em... Hegel, na sua forma de recorrer, em qualquer circunstância, aos bons ofícios do Espírito. Pensava também que um sistema não era senão a vitória...

Dos jornais L

“Por cada barragem colonial, hospital colonial, escola colonial, por cada construção de estrutura de esgotos, sanitária, etc., devemos ter em atenção os homens, as mulheres e as crianças que as construíram”, sublinhou. Para a investigadora, a celebração de edifícios icónicos, como a sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, deve incluir o reconhecimento do sacrifício de quem os construiu.  “Não devemos apenas falar do arquiteto, do dono da obra ou de quem a financiou. Devemos dar um lugar na história do edifício aos trabalhadores. O carpinteiro tem uma responsabilidade equivalente à do arquiteto”, afirmou.

Do velho Carl Jung:

«Libertem-se os instintos do homem civilizado! O apaixonado pela cultura acredita que daí flua autêntica beleza. Este erro baseia-se numa falta profunda de conhecimento psicológico. As forças instintivas, contidas no homem civilizado, são altamente destrutivas e, de longe, bem mais perigosas do que os instintos do primitivo que vive sempre modestamente os seus instintos negativos. Por isso nenhuma guerra do passado histórico pode rivalizar em atrocidade com a guerra das nações civilizadas. Não devia ter sido diferente entre os gregos. Foi exatamente a sensação viva do horror que os levou gradualmente a uma reconciliação do dionisíaco com o apolíneo, “por um milagre metafísico”, como diz Nietzsche.» Tipos Psicológicos , trad. Lúcia Mathilde Endlich Orth.