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Mensagens

Manguito

A imagem mostra uma menina sorridente a posar junto à carcaça praticamente intacta de um míssil. O «fotógrafo» é um adulto, talvez o pai, que também sorri, enquanto escolhe o melhor ângulo para fotografar a criança. O local é Salfit, na Cisjordânia , e a bomba é o que resta de um míssil iraniano interceptado pela defesa antiaérea israelita. À primeira vista, parece uma prova grotesca daquilo que, imagino, a guerra faz aos humanos: seres fechados na insensibilidade e na indiferença para não caírem no desespero e na loucura. Mas talvez não seja isso que a imagem mostra. Talvez a menina e o homem sorriam simplesmente porque estão vivos. Escaparam à «morte e destruição vindas do céu», como o secretário da Defesa de Trump classificou com orgulho a chamada «Operação Fúria Épica», que os Estados Unidos e Israel movem, neste momento, contra o Irão. A imagem é a prova de que a vida, mais uma vez, fez um manguito aos senhores da morte.

O maior problema seria o estado do tempo

(...) Decidiu fazer as coisas à sua maneira. Reuniria um grupo de pessoas – não era preciso serem actores profissionais – e explicar-lhes-ia o que pretendia. Deixá-las-ia decidir o que iam fazer e dizer. Usaria apenas a luz disponível, o que implicava, supunha ele, que a maior parte do filme fosse rodada no exterior. Filmaria tudo num único dia, dois talvez. Se possível, não alteraria o que tinha filmado. Pensou nos lugares que as pessoas frequentavam ou em que era possível ver pessoas: as ruas, os parques, as praias. Ia usar esses lugares. O maior problema, imaginava ele, seria o estado do tempo. Lembrou-se dos contos que tinha escrito anos antes, histórias sobre jovens em momentos de dilema e iluminação. Percebeu que estas histórias seriam o modelo para o seu projecto. Como tinham parecido vir da vida, achou que de certeza conseguiria recriá-las como experiências verdadeiras. Não admirava que a editora os tivesse rejeitado. Precisavam de ser reavivados por todo o terno desconhecime...

Pensar e passar o tempo

Hora de almoço. Despacho, em duas penadas, o que trouxe de casa no tupperware . Ponho as minhas coisas num saco e corro para a esplanada mais próxima do trabalho. Um lugar formidável: cabeça à sombra, corpo ao sol. O café custa 1 euro. Percebo que, na pressa, trouxe o caderno, mas esqueci o livro que ando a ler. O que fazer sem o livro? Decido escrever isto para passar o tempo. Claro que isto não tem qualquer serventia. Mas escrever serve para mais alguma coisa, senão para pensar e passar o tempo?

Dos jornais LII

O objectivo de Rosário Palma Ramalho é claro: esmagar os trabalhadores e acabar com os sindicatos. Só há uma resposta para toda esta sanha.

Reconversão

Notícia no jornal: «A Volkswagen estará a discutir um plano para reconverter a sua fábrica de Osnabrück, na Baixa Saxónia, passando da produção de carros para a produção de componentes para sistemas de defesa aéreos – especificamente, o sistema Cúpula de Ferro, da empresa Rafael Advanced Defense System, grupo detido pelo Governo de Israel.» A história não se repete. Não se repete?

Dos jornais LI

Aqui no bairro, a primavera começou hoje.
Percebemos que o cinema contemporâneo perdeu a sua força quando vemos Au hasard Balthazar numa sala de cinema e o mundo estremece.

Praça e Batalha

Tarde de sábado, 21 de Março. No Salão Nobre do Teatro São João, conversa-se sobre a obra de Manuel António Pina , o autor que passou a vida inteira, obsessivamente, às voltas com a palavra «casa», o lugar mítico a que todos regressamos ou desejamos regressar: «Teremos então, enfim, uma casa onde morar/ e uma cama onde dormir/ e um sono onde coincidiremos/ com a nossa vida.» Fora do teatro, na Praça da Batalha, à mesma hora, o movimento «Casas para Viver» promove mais uma manifestação contra a especulação imobiliária e pelo direito à habitação: «Mães sozinhas com crianças são despejadas, famílias vivem amontoadas, outras regressam a barracas sem água nem luz, e há quem volte do trabalho para dormir numa tenda.» Conversa e manifestação, na mesma praça e ao mesmo tempo, são uma espécie de «acaso objectivo». O país que Manuel António Pina descreveu nos seus textos é uma velha tartaruga: não pula e pouco avança.
Devia haver um plano de Molly Malone nas História(s) do cinema .

Não olhes para a câmara

Em The Scarlet Drop (1918), um dos filmes de juventude de John Ford, há pelo menos dois planos em que a heroína, Paulina (Molly Malone), olha intencionalmente para a câmara. A actriz olha-nos nos olhos para expressar uma emoção. Era o tempo em que não havia escolas de cinema. Não havia professores a ensinar que os actores não devem olhar para a câmara. Não devem? Quando Molly olha para nós, a sensação é a de acedermos a um mistério que parecia perdido para sempre.

Como resistir?

Antes de sair para o trabalho, ouço o noticiário da rádio e já não consigo pensar senão no óbvio: as palavras não são imortais. As palavras sofrem em certas bocas. São aprisionadas, envenenadas, torturadas, despedaçadas. Mergulhadas em aço líquido, ódio, peste. Enlouquecem de dor. E o que podemos nós fazer? Se não conseguimos salvar as palavras, não conseguimos salvar-nos a nós mesmos. A nossa sensação de impotência é o triunfo da tirania. Como resistir? Como salvar as palavras para nos salvarmos a nós?
Uma imagem para o Presidente da CIP. Vi nascer todos esses jogos no Japão. Reencontrei-os depois no mundo inteiro, com uma pequena variante: ao princípio é um jogo conhecido, uma espécie de bateria anti-ecológica onde se trata de malhar, mal ponham a cabeça de fora, em criaturas que ainda não determinei se são ratões-d’água ou bebés-foca. Eis agora a variante japonesa: em vez dos bichos, umas cabeças vagamente humanas identificadas por uma etiqueta. No topo, o Presidente-director-geral. À sua frente, o Vice-presidente e os directores. Na primeira fila, os chefes de secção e o chefe do pessoal. O tipo que filmei, e que desancava na hierarquia com uma energia invejável, confidenciou-me que para ele o jogo não era nada alegórico, era mesmo nos seus superiores que estava a pensar. É por isso, sem dúvida, que a marioneta do chefe do pessoal foi tantas vezes e tão fortemente martelada que está fora de serviço, e teve de ser substituída de novo por um bebé-foca. Sem Sol, Chris Mar...

Andar de carro

A televisão do Piolho mostra imagens da destruição no Irão: depósitos de petróleo em chamas, colunas descomunais de fumo negro, prédios e casas em ruínas. Um oráculo dá conta do infame número de vítimas civis do ataque israelo-americano. Na mesa do lado, um tipo comenta as imagens, queixando-se do preço da gasolina: «Qualquer dia, não se pode andar de carro.»