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A pobreza de meios

Nunca me pareceu que a pobreza de meios, que é (pelo menos no meu caso) mais vezes uma questão de circunstâncias do que de escolha, pudesse fundar uma estética, e já deito as histórias do Dogma pelos olhos. É mais a título de encorajamento para jovens cineastas desprovidos de recursos que menciono estes pequenos detalhes técnicos: La Jetée foi realizada com uma máquina Pentax 24x36, e a única passagem filmada em «cinema», aquela que culmina no bater de olhos, com uma câmara 35 mm Arriflex emprestada por uma hora. 

Sans Soleil foi filmado na íntegra com uma câmara Beaulieu 16 mm, muda (não há um único plano síncrono em todo o filme), com bobinas de 30 metros – 2’44’’ de autonomia! – e um pequeno gravador de cassetes – nem sequer um Walkman, que ainda não existia… O único elemento sofisticado – para a época – foi o sintetizador de imagem Spectre, também emprestado por alguns dias. Tudo isto para dizer que as ferramentas de base destes dois filmes estavam literalmente ao alcance de qualquer um. Não retiro disto nenhuma vã glória, apenas a convicção de que hoje, com o computador e as pequenas câmaras DV, homenagem involuntária a Dziga Vertov, um cineasta principiante não tem nenhuma razão para deixar o seu destino à mercê da imprevisibilidade dos produtores ou à artrite das televisões e que, ao seguir as suas ideias ou as suas paixões, talvez veja um dia as suas bricolagens elevadas à categoria de DVD por pessoas sérias. 

Escrevo isto em Outubro de 2002, quando se desenha uma nova nova vaga, da qual os meus jovens camaradas de Kourtrajmé são exemplos jubilatórios, e que talvez até já tenha o seu À bout de souffle com Demi-Tarif, de Isild Le Besco.


Chris Marker (texto publicado no livreto do DVD La JetéeSans Soleil, 2003)

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