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Mensagens

Surpresas em caixinhas forradas

O número 14 do jornal Coreia traz um texto formidável de Carlo Canún sobre o Cine Savoy. Uma sala de cinema na Cidade do México que exibe filmes porno gay e que é, ao mesmo tempo, lugar de encontro para relacionamentos sexuais entre homens. Canún compara a configuração do Cine Savoy com a página de um livro: «As poltronas funcionam como o corpo do texto, disposto em duas colunas. As pessoas a foder, à maneira de uma orgia, no espaço por baixo do ecrã e em frente às poltronas, funcionam como notas de rodapé. Podem ser ignoradas, mas quando não o são trazem informação relevante. Por fim, as margens. Esses espaços a que normalmente não se dá importância, mas onde acontece o que é mais interessante.» Savoy é também o nome do hotel do grande romance de Joseph Roth. Gosto de imaginar que não é um acaso. O livro de Roth começa assim: «O Hotel Savoy promete aos seus hóspedes água, sabão, casa de banho inglesa, elevador, criada de quarto com touca branca e ainda surpresas em caixinhas forrada...

Abril

Ao embater na realidade, o cartaz de comemoração dos dois anos de actividade do governo ganha um tom de ameaça. Pelo sim pelo não, comprei cravos para perfumar a casa e a vida.

Como no filme de Hana Makhmalbaf

A alegoria, diz o dicionário, é uma representação simbólica da realidade. Quando a fronteira entre a realidade e a alegoria se desfaz, o chão desaparece. É isso o que acontece num filme que vimos esta semana: Buda caiu de vergonha , de Hana Makhmalbaf. A violência indizível do filme reside na impossibilidade de distinguir a realidade da alegoria. Algo de semelhante se passa hoje no mundo: já não somos capazes de distinguir o presidente dos Estados Unidos e outros chefes bufões da extrema-direita das personagens do Rei Ubu. Nada é seguro, todas as referências desapareceram. O pesadelo é a realidade. Como no filme de Hana Makhmalbaf.

Acto de primavera

Ao fim de muitas revisões (a maior das práticas dialécticas?), começo a ficar satisfeita com a tradução do ensaio de Cioran sobre o pensamento reaccionário dedicado a Joseph de Maistre. O texto já parece um corpo vivo: familiar e estranho ao mesmo tempo. «Entre os pensadores que, como Nietzsche ou São Paulo, tiveram o gosto e o génio da provocação, cabe a Joseph de Maistre um lugar nada negligenciável. Ao elevar o mais pequeno problema ao nível do paradoxo e à dignidade do escândalo, ao manejar o anátema com uma crueldade misturada de fervor, ele estava destinado a criar uma obra rica em enormidades, um sistema que não deixa de nos seduzir e exasperar. A amplitude e a eloquência das suas cóleras, a paixão que dedicou a causas indefensáveis, a obstinação em legitimar umas quantas injustiças, a predilecção pela fórmula letal, fazem dele esse espírito exagerado que, não se dignando a persuadir o adversário, o esmaga de chofre com um adjectivo. As suas convicções têm aparência de grande fi...

Manguito

A imagem mostra uma menina sorridente a posar junto à carcaça praticamente intacta de um míssil. O «fotógrafo» é um adulto, talvez o pai, que também sorri, enquanto escolhe o melhor ângulo para fotografar a criança. O local é Salfit, na Cisjordânia , e a bomba é o que resta de um míssil iraniano interceptado pela defesa antiaérea israelita. À primeira vista, parece uma prova grotesca daquilo que, imagino, a guerra faz aos humanos: seres fechados na insensibilidade e na indiferença para não caírem no desespero e na loucura. Mas talvez não seja isso que a imagem mostra. Talvez a menina e o homem sorriam simplesmente porque estão vivos. Escaparam à «morte e destruição vindas do céu», como o secretário da Defesa de Trump classificou com orgulho a chamada «Operação Fúria Épica», que os Estados Unidos e Israel movem, neste momento, contra o Irão. A imagem é a prova de que a vida, mais uma vez, fez um manguito aos senhores da morte.

O maior problema seria o estado do tempo

(...) Decidiu fazer as coisas à sua maneira. Reuniria um grupo de pessoas – não era preciso serem actores profissionais – e explicar-lhes-ia o que pretendia. Deixá-las-ia decidir o que iam fazer e dizer. Usaria apenas a luz disponível, o que implicava, supunha ele, que a maior parte do filme fosse rodada no exterior. Filmaria tudo num único dia, dois talvez. Se possível, não alteraria o que tinha filmado. Pensou nos lugares que as pessoas frequentavam ou em que era possível ver pessoas: as ruas, os parques, as praias. Ia usar esses lugares. O maior problema, imaginava ele, seria o estado do tempo. Lembrou-se dos contos que tinha escrito anos antes, histórias sobre jovens em momentos de dilema e iluminação. Percebeu que estas histórias seriam o modelo para o seu projecto. Como tinham parecido vir da vida, achou que de certeza conseguiria recriá-las como experiências verdadeiras. Não admirava que a editora os tivesse rejeitado. Precisavam de ser reavivados por todo o terno desconhecime...

Pensar e passar o tempo

Hora de almoço. Despacho, em duas penadas, o que trouxe de casa no tupperware . Ponho as minhas coisas num saco e corro para a esplanada mais próxima do trabalho. Um lugar formidável: cabeça à sombra, corpo ao sol. O café custa 1 euro. Percebo que, na pressa, trouxe o caderno, mas esqueci o livro que ando a ler. O que fazer sem o livro? Decido escrever isto para passar o tempo. Claro que isto não tem qualquer serventia. Mas escrever serve para mais alguma coisa, senão para pensar e passar o tempo?

Dos jornais LII

O objectivo de Rosário Palma Ramalho é claro: esmagar os trabalhadores e acabar com os sindicatos. Só há uma resposta para toda esta sanha.

Reconversão

Notícia no jornal: «A Volkswagen estará a discutir um plano para reconverter a sua fábrica de Osnabrück, na Baixa Saxónia, passando da produção de carros para a produção de componentes para sistemas de defesa aéreos – especificamente, o sistema Cúpula de Ferro, da empresa Rafael Advanced Defense System, grupo detido pelo Governo de Israel.» A história não se repete. Não se repete?

Dos jornais LI

Aqui no bairro, a primavera começou hoje.
Percebemos que o cinema contemporâneo perdeu a sua força quando vemos Au hasard Balthazar numa sala de cinema e o mundo estremece.

Praça e Batalha

Tarde de sábado, 21 de Março. No Salão Nobre do Teatro São João, conversa-se sobre a obra de Manuel António Pina , o autor que passou a vida inteira, obsessivamente, às voltas com a palavra «casa», o lugar mítico a que todos regressamos ou desejamos regressar: «Teremos então, enfim, uma casa onde morar/ e uma cama onde dormir/ e um sono onde coincidiremos/ com a nossa vida.» Fora do teatro, na Praça da Batalha, à mesma hora, o movimento «Casas para Viver» promove mais uma manifestação contra a especulação imobiliária e pelo direito à habitação: «Mães sozinhas com crianças são despejadas, famílias vivem amontoadas, outras regressam a barracas sem água nem luz, e há quem volte do trabalho para dormir numa tenda.» Conversa e manifestação, na mesma praça e ao mesmo tempo, são uma espécie de «acaso objectivo». O país que Manuel António Pina descreveu nos seus textos é uma velha tartaruga: não pula e pouco avança.
Devia haver um plano de Molly Malone nas História(s) do cinema .

Não olhes para a câmara

Em The Scarlet Drop (1918), um dos filmes de juventude de John Ford, há pelo menos dois planos em que a heroína, Paulina (Molly Malone), olha intencionalmente para a câmara. A actriz olha-nos nos olhos para expressar uma emoção. Era o tempo em que não havia escolas de cinema. Não havia professores a ensinar que os actores não devem olhar para a câmara. Não devem? Quando Molly olha para nós, a sensação é a de acedermos a um mistério que parecia perdido para sempre.