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Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2026

Reflexão

Atribuir uma significação ao processo histórico, ainda que a fizessem surgir de uma lógica imanente ao devir, é subscrever, mais ou menos explicitamente, uma forma de providência. Pelo próprio facto de conferirem um sentido aos acontecimentos, Bossuet, Hegel e Marx pertencem à mesma família ou, pelo menos, não diferem uns dos outros no essencial, pois o importante não é definir ou determinar esse sentido, mas recorrer a ele, postulá-lo – e é isso que eles fazem. Passar de uma concepção teológica ou metafísica para o materialismo histórico é simplesmente mudar de providencialismo. Se nos habituássemos a olhar para além do conteúdo específico das ideologias e das doutrinas, veríamos que reivindicar uma em vez de outra não implica, de modo algum, qualquer esforço de sagacidade. Os que aderem a um partido acreditam que se distinguem dos que seguem outro quando, na realidade, desde o momento em que escolhem, todos convergem na essência, participam da mesma natureza e diferem apenas em aparê...

O chicote

Certo dia, comecei a escrever, sem saber que me tinha acorrentado a um senhor, sem dúvida nobre, mas inclemente. Quando Deus nos concede um dom, dá-nos também um chicote; esse chicote destina-se unicamente à autoflagelação… Era extremamente divertido ao princípio. Deixou de o ser, quando descobri a diferença entre escrever bem e escrever mal. Fiz, então, uma descoberta mais alarmante; a diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; é subtil, mas cruel. E, depois disso, caiu o chicote. Truman Capote, Música para Camaleões . Tradução de Ersílio Cardoso.

Brecha no pensamento

Não sei se foi por acaso ou empurrada por uma necessidade inconsciente; a verdade é que os três primeiros filmes que vi este ano são optimistas. Onde aterrar , de Hal Hartley é como um copo de limonada fresca, ou como as personagens dizem da água com aroma a cerveja (e, com ironia, do próprio filme): «isto não é nada mau». Mais do que um conto de fadas, Mirroirs no.3 , de Christian Petzhold, é uma daquelas histórias japonesas aéreas, cheias de vento, sim, e sem ponta de moralidade. Quanto a India: Matri Bhumi, de Rossellini (caramba, já o devia ter visto há muitos anos), é uma verdadeira brecha.

Aquela palavra

Nas crónicas de Manuel António Pina, é impossível não reparar no elevado número de vezes em que ocorre a palavra «coração». Um exemplo entre muitos: «Às vezes as nossas palavras dizem mais que nós; porque é nelas, e não na razão calculista, que pulsa o coração, o coração revelador como diria Poe.» Ora, qualquer escritor, escrevinhador ou aprendiz de feiticeiro sabe que aquela palavrinha deve ser usada com moderação. Salvo em textos realmente invulgares. Como os do Pina. A palavra repete-se, página após página, e é como se a lêssemos sempre pela primeira vez.

Sopa

Comentadores, politólogos e especialistas. A grande vaca fria. Dezenas de pessoas a repetirem as mesmas ideias, recorrendo alegremente às mesmas palavras e às mesmíssimas frases. Toda uma excitada indústria da banalidade. O funcionamento do mundo e das coisas, pelos vistos, é simples de explicar. O que vai na cabeça dos grandes chefes, também. Não é óbvio? A sopa vulgar que a extrema-direita aproveita para nos servir em malgas de cantina de empresa, a nós, pobres-diabos estúpidos e com gosto por explicações simples. «Um bom cidadão come o que tem a comer e isso basta!» (Walser.) Quem não gosta da sopa e desconfia do tempero, é doido ou vai endoidecer.

Breves estudos comparativos

 «Já reparou nos grandes nacos de pão que andam a boiar na sua sopa? Não é por acaso que isso me traz à memória a ideia de um fim do mundo. Uma grande visão assente numa observação muito pequena.»  Nesta frase , Bernhard usa a mesma fórmula imagética da cena do café de 2 ou 3 choses que je sais d'elle . Mas como somos obrigados a recriar o quadro dentro da cabeça (como aprendizes de Béla Tarr?), a ligação dos nacos de pão a boiar na sopa ao fim do mundo é maior, assemelha-se a uma maldição que não nos vai largar mais.

O canalha nunca se acha canalha

Nunca falsifiquei nas minhas peças. Graças a muito sofrimento, a toda uma experiência de vida tenebrosa, sobretudo em tragédias familiares, eu aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo, porque as pessoas falsificam pra burro. O homem é um ator para os outros e sobretudo para si mesmo. O canalha nunca se acha canalha, se acha de uma bondade inexcedível. Há os autopunitivos, mas a maioria consegue fazer de si mesmo uma estátua. Nelson Rodrigues, Nelson Rodrigues por ele mesmo .

Dos jornais XXXXVI

Muitos jornais, por todo o mundo, escolheram a mesma imagem para a capa: Nicolás Maduro de fato de treino cinzento, algemado, olhos e ouvidos vendados, com uma pequena garrafa de água na mão direita. Alguns colocaram-na ao lado de uma fotografia de Trump. Como Godard explica em A Nossa Música , também aqui o campo e o contracampo são as duas faces da mesma moeda. Não há diálogo possível, nem mudança. É a picada da abelha morta.

Em círculos

O dilema moral que Jafar Panahi retrata no novo filme Foi só um acidente é o mesmo que, por exemplo, Tiago Rodrigues propõe em Catarina e a beleza de matar fascistas . O mais humano dos dilemas: como combater a violência e a opressão sem ceder à simples lógica da vingança, ao princípio do olho por olho, dente por dente, tão velho como o Antigo Testamento? Voltamos à leitura de Walter Benjamin sobre os contos de fadas de Robert Walser. O perdão é um acto de ingenuidade ou uma forma de libertação? Que lado escolhemos? Não saímos disto. Andamos em círculos, como na Divina Comédia .

Mensagem de ano novo (em três partes)

«Os pesadelos de Lovecraft, as visões de Philip K. Dick e a inquietante matemática de Hilbert – dissolvidos no inferno a que chamamos Internet – acabaram por se tornar qualquer coisa que se assemelha ao nosso mundo. Ou pior, que o é.»   ··· A loucura é um dos terrenos mais férteis para a literatura. A literatura é uma é das poucas criações humanas em que a loucura desempenha um papel essencial. Para mim, o delírio é o coração da literatura essa espécie de estranha possessão. ··· Ehrenfest buscava incansavelmente aquilo a que chamava der springende Punkt , o ponto crucial, o cerne da questão, pois para ele, deduzir um resultado por meios lógicos nunca era suficiente: “Isso é como dançar numa só perna”, dizia, “quando a essência está em reconhecer conexões, significados e associações em todas as direções”. Para Ehrenfest, a verdadeira compreensão era uma experiência de corpo inteiro, algo que envolvia todo o seu ser, e não apenas o cérebro ou a razão.