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Mensagens

A mostrar mensagens de agosto, 2026

Maldição

A maldição do leitor fanático: reconhecer em tudo, como alguém tomado por alucinações, ecos das palavras e ideias dos seus escritores. Uma carta de Beckett a Axel Kaun, de 1937, parece a cópia de uma entrada dos diários de Macedonio Fernández: «Tenhamos a esperança de que virá o tempo em que a linguagem é mais eficientemente usada quando mal-usada. Cavar nela um buraco atrás do outro, até que aquilo que está à espreita por detrás – seja alguma coisa ou nada – comece a emergir. Não consigo imaginar objectivo mais elevado para um escritor.»
De manhã, praia; à tarde, um filme, um filme de Agnès Varda. Crítica cinematográfica como praxis , sem deixar vestígios. Si on ouvrait les gens, on trouverait des paysages. Moi si on m'ouvrait, on trouverait des plages .

Velhas glórias

Meados de Agosto. Praça de uma vila do Minho, pouco depois da hora do jantar. As pedras ainda estão quentes. Ao centro, em volta do chafariz, esplanadas com turistas. Bebe-se cerveja, comem-se gelados. De repente, na rua que circunda a praça, uma procissão de velas. Os turistas observam com uma curiosidade distraída. A figura de Nossa Senhora, erguida sobre o andor, olha para o alto, com a esfíngica solenidade das velhas glórias do cinema. Alguns turistas filmam com os telemóveis, por simples hábito, sem se levantarem do lugar. «Muito bem, senhoras e senhores. Posições habituais. Está pronta, Norma? Luzes! Câmara! Acção!»

Já não há quase nada em mim que não se compadeça

Doravante e por muito tempo não será questão de obra de arte. Para estarmos à escuta de novas, indistintas harmonias seria preciso não termos sido ensurdecidos pelos lamentos. Já não há quase nada em mim que não se compadeça. Onde quer que pouse o olhar, só vejo aflição à minha volta. Hoje, quem quer que permaneça contemplativo faz prova de uma filosofia desumana, ou de uma cegueira monstruosa. André Gide, Diários , 25 de Julho de 1934. (Citado em O Espaço Literário , de Blanchot.)

Sozinhas

No jornal de hoje, mais um texto sobre o restauro dos Painéis de São Vicente . Repetem-se as dúvidas e as hipóteses em torno da obra, do artista e das personagens representadas na pintura. Desta vez, no entanto, há uma tese curiosa, de Joaquim Caetano. O historiador de arte está convencido de que as personagens não representam tipos sociais, mas pessoas concretas: 58 retratos individuais, pintados em circunstâncias diferentes e que por alguma razão tinham de estar ali. E termina com esta frase espantosa : «Quanto mais olho para elas, mais sinto que estão sozinhas.»
A descrição do filme no canal por cabo diz: «Uma mulher partilha momentos importantes da sua vida com um homem». Até parece uma coisa das redes sociais, mas  Les photos d'Alix (1980)  não é nada disso. O filme de Jean Eustache é uma belíssima e divertida aula de cinema. Em dezanove minutos aprendemos que som e imagem podem seguir caminhos diferentes (piscadela a Renoir), o que parece uma cena documental não passa de uma farsa, e cada plano estabelece uma relação dialéctica com os espectadores mais disponíveis. Verdadeiro action cinema . Ainda assim, Alix diz a Boris: «uma fotografia pode ser pessoalmente pornográfica e, ao mesmo, tempo publicamente decente», ou «seduzi uma pessoa com esta foto». É preciso combater a literalidade do nosso tempo com frases ambíguas.

Livros Bicho Ruim

O que fazer quando certos livros de que gostamos ou com que sonhamos não estão publicados? Publicamos nós.  Os dois primeiros volumes dos Livros Bicho Ruim estarão já disponíveis durante a Feira do Livro do Porto, entre 21 de Agosto e 6 de Setembro, no Stand ZOO (#107). Mais informações no sítio dos Livros Bicho Ruim: aqui .
Agradava-lhe que os mesmos crisântemos aparecessem nos funerais dos homens e dos bichos. Chris Marker, Sem Sol. Em breve nas melhores livrarias e feiras.

Uma fila em que todos esperam pela oportunidade de enriquecer

Houve recessões e escassez e as pessoas sentem-se vulneráveis no plano económico e precisam de encontrar alguém a quem atribuir a culpa. Em vez de culparem as políticas neoliberais, a redução dos impostos sobre os mais ricos e a acumulação de fortunas gigantescas, culpam os imigrantes ou os pobres. Imaginam uma fila em que todos esperam pela oportunidade de enriquecer e vêem os programas de inclusão como uma forma de deixar passar à frente pessoas sem mérito: imigrantes, afro-americanos ou pessoas queer . Não percebem que não existe uma meritocracia. Quem acumulou milhões beneficia de reduções fiscais e de empresas que pagam pouco aos trabalhadores. É difícil culpar um sistema. Muitos pensam que o capitalismo é maravilhoso e meritocrático e que o sistema económico não pode, por isso, ser o problema. Culpam aqueles que chegaram às suas comunidades com outros modos de vida, outras formas de vestir e de falar. Em vez de encararem a diversidade como um enriquecimento da cultura, sentem-na ...

Campanha com fumo e cinza

Novos outdoors do chefe da extrema-direita. Imagem: o chefe de perfil com a bandeira portuguesa em fundo. Mensagem: «Salvar Portugal.» Salvar de quem ou de quê? Se o país tem de ser salvo de alguém ou de alguma coisa é óbvio de quem ou de quê. A corrupção moral e as falsas guerras destes novos-velhos chefes «providenciais» foram, são e sempre serão a grande ameaça.

Aqueles que evocam a ira

Os miúdos marroquinos que se fizeram ao mar para chegar a Ceuta são uma resposta louca à Odisseia. É isto que o cinema tem de filmar.