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A mostrar mensagens de setembro, 2026

A torrente e fria

Falstaff , de Orson Welles. Momento crucial do filme: o Príncipe Henry atinge mortalmente o rebelde Henry Percy, durante a Batalha de Shrewsbury. Henry Percy profere as suas famosas últimas palavras: Oh, Harry, que me roubaste a juventude! Aguento melhor a perda da franzina vida Do que dos briosos títulos que me ganhaste. Isse fere-me as ideias mais do que a espada a carne. Mas as ideias, escravas da vida, e a vida, Jogral do tempo, e o tempo, guardador do mundo, Têm de ter um fim. Oh, eu faria profecias, Não fosse a torrenta e fria mão da morte Pesar-me na língua. Não, Percy, tu és pó E alimento para… (Pausa solene no filme.) Um espectador espirra gravemente.

Das Passagen-Werk

Dos jornais LXX

Vários cães vadios foram vistos na manhã desta terça-feira a passear na placa do Aeroporto do Porto. O jornal não o diz, mas é óbvio que se trata de uma homenagem a Cossery. Os cães nunca nos deixam ficar mal.

«Explicar» a música com palavras

Um pormenor formidável de Audition , de Miloš Forman. Na primeira parte do filme, o maestro de uma das bandas filarmónicas, nos ensaios, dirige-se aos músicos sempre com os olhos fechados. Não é um acaso: Forman mostra-o várias vezes . O maestro só abre os olhos quando a banda começa a tocar e a música irrompe. Parece um tique nervoso, que favorece o cómico. Mas será apenas isso? Dá a ideia de que, para ele, «explicar» ou «comentar» a música através de palavras é um acto de violência. O maestro fecha os olhos e faz caretas porque as palavras magoam-no, doem-lhe.

Não querem ouvir, não querem falar

Os «meninos de merda» não falam de modo nenhum de problemas sociais e políticos: aliás, as suas caras exprimem, a esse propósito, uma aversão invencível. Até fecham os olhos, fazendo com a boca uma careta dolorosa: como quem dorme com dores de barriga. Não querem ouvir, não querem falar. E estes são os melhores. Os outros, que são mais, nem sequer sabem que existe o problema de se recusar a falar de problemas políticos, ou inclusivamente de saber alguma coisa deles. Bem diferente é o que enche de interesse as suas caras abaladas por uma exaltação nervosa, ou por descargas de «expressões não-verbais», como gargalhadas ou peidos. Pier Paolo Pasolini, Petróleo . Tradução de José Colaço Barreiros/Hugo Miguel Santos.

Pistas falsas

Já deixei passar várias vezes a oportunidade de ver Silvia Prieto no Trindade. Mas perder a sessão por causa da tosse parece-me um sinal do filme. Daqueles que não fazem sentido e, talvez por isso mesmo, nos espicaçam.

De la mujer al hombre va una diagonal

Não se chega ao cinema apenas pelos filmes; às vezes é a realidade que nos empurra ou algum texto perdido por aí. Desde Julho, Pablo García Canga tem publicado belíssimos textos sobre filmes de Naruse no blogue El diablo quizás.  Este é o vigésimo quinto, começa assim: «Es en un claro del bosque. El viento agita las luces y las sombras. Hay un hombre y una mujer. Están frente a frente, a distancia. No hay hostilidad entre ellos. Sí hay, sin embargo, tensión. Algo va a suceder. La cámara está en alto. De la mujer al hombre va una diagonal. El claro, de una manera imprecisa, hace pensar en un círculo. En un espacio delimitado para que, allí, dentro del círculo, suceda algo. Un escenario, quizás. O, también, un círculo de lucha. Un círculo para una lucha solemne, con reglas y tradición. Se piensa en un duelo. No es el plano en sí el que evoca eso. No sólo. Hay algo más. Hay todo lo que ha sucedido antes. Se llega a esta secuencia con la idea del duelo rondando la mente. Duelo a muerte...

«Thank God for corruption»

Perdi a conta ao número de vezes que as quatro personagens masculinas de Days and Nights in the Forest , de Satyajit Ray, abrem a carteira (a câmara fixa-se, gulosa, sobre ela), tiram notas (nunca moedas), rupias e mais rupias, compram coisas e pessoas. Para elas, não há diferença: coisas e pessoas compram-se da mesma maneira. O filme é sobre isso.
Pedro Costa: (...) O cinema não é simplesmente fazer um filme, reunir uma equipa e levá-lo de festival em festival. O cinema é outra coisa: é a arte da revolta. Há muitos jovens zangados; o cinema é também uma arte da juventude, e quando o cinema deixa de se confrontar com a realidade, ou se recusa a vê-la, deixa de ser cinema — deixa de existir.

Últimos dias da feira

Os Livros Bicho Ruim estão no Stand ZOO (n.º 107), na Feira do Livro do Porto. Só até este domingo, 6 de Setembro. Mais informações aqui .