Há poetas aos quais pedimos que nos amparem na queda, que encorajem o nosso riso sarcástico e agravem os nossos vícios ou as nossas estupefacções. São irresistíveis, são maravilhosamente debilitantes… Outros há, de abordagem mais difícil, porque não alinham com as nossas amarguras e obsessões. Mediadores no conflito que nos opõe ao mundo, convidam‑nos à aceitação, à auto‑disciplina. Quando estamos fartos de nós mesmos, e mais ainda dos nossos lamentos; quando essa mania, eminentemente moderna, de protestar e reivindicar assume, aos nossos olhos, a gravidade de um pecado, como é reconfortante, então, encontrar um espírito que jamais lhe sucumbe, que recua perante a vulgaridade da revolta como um homem da Antiguidade – da Antiguidade heróica e da última Antiguidade –, tanto aparentado a um Píndaro como ao Marco Aurélio da exclamação: «Tudo o que as horas me trazem é para mim um fruto saboroso, ó Natureza.»
Há em Perse uma nota de sabedoria lírica, uma soberba litania do consentimento, uma apoteose da necessidade e da expressão, do destino e do verbo, assim como – sem qualquer ponta de cristianismo – um lado visionário. «E a estrela apátrida caminha nas alturas do verde século» – não parece que estamos a ler um versículo de uma variante serena do Apocalipse? Se o universo desaparecesse, nada se perderia, pois a própria linguagem o substituiria. Bastaria uma palavra, uma mera palavra que sobrevivesse ao naufrágio geral, para desafiar o nada. Tal parece ser a conclusão que o Poema implica e exige.
Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.
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