Não tive tempo para ler o título nem o nome do realizador, quando entrei na sala o ecrã estava negro, ouviam-se apenas sons de estrada — era o primeiro plano de um filme anónimo. Depois, pouco a pouco, a paisagem e as vozes dos dois velhos japoneses — o segundo plano que se estende até ao fim, sem corpos de actores, sem qualquer movimento da câmara; pelo contrário, é o nevoeiro que avança e recua fazendo-nos ver coisas e sombras onde existem árvores, pedras e sombras. O lugar é belo e desolado. O primeiro homem assusta-se com o segundo homem, toma-o por um fantasma, como numa história de Junichirô Tanizaki. Mas têm a boa vontade de quem passa muito tempo sozinho e começam a conversar. Falam com uma tristeza mais ou menos alegre do passado, das histórias que os amedrontavam quando eram crianças. Histórias de raposas que se transformam, como para nós os lobos (o eterno medo da metamorfose, de não estarmos nunca seguros de quem é o outro — e também nós somos sempre o outro de alguém). E então cada um deles recorda uma história (será que se diz kitsune monogatari?), e recorda-a com todos os pormenores e o seu ritmo — ah, o ritmo das histórias que nos eriçam a pele. Bebem chá quente de um termos. E é só isto. Um lugar onde nos podemos sentar a ouvir (como num sonho, sabe...), e cada palavra traça uma armadilha à nossa volta. (Texto escrito em julho de 2008, uns dias depois de ter visto Kitsune pela primeira vez.) *
Na sessão de sexta-feira no cinema Batalha, entre outras coisas, João Penalva contou que, quando projectou Kitsune no Japão e revelou o local de filmagem (Vereda dos Pastores, Pico do Areeiro, Ilha da Madeira, num dia de bruma) uma rapariga levantou-se — contrariamente aos hábitos serenos dos orientais — e disse que não era possível: ela conhecia o sítio exacto no Japão onde o filme tinha sido rodado.
Comentários