sábado, 2 de maio de 2015

Ver O Passado e o Presente só agora (última quinta-feira à noite na RTP2, integrado numa homenagem de circunstância), fora de ordem cronológica e depois dos outros amores frustados de Manoel de Oliveira, é uma experiência curiosa — é mais ou menos como encontrar um pedacinho de papel rasgado que nos permite decifrar um recado antigo.

Se a palavra não fosse tão pesada, aventurava-me a dizer que este filme é um programa, mas o ritmo não consente. O ritmo começa por ser a música de Mendelssohn (camada sobre camada, "Sonho de uma Noite de Verão" sobre os desenganos amorosos de Shakespeare), essa é a primeira impressão do cinema mudo e é assim que o filme abre. Depois, pouco a pouco, vamo-nos apercebendo que o ritmo é tudo: desde a câmara excitada e ágil ao enquadramento rigoroso, dos movimentos diletantes dos actores aos diálogos um bocado gagos e, por isso mesmo, perfeitos para a função (a gaguez é uma das características mais potentes da modernidade). Manoel de Oliveira dispõe-se a filmar as convenções dos ricos a partir do seu interior. Porcelanas, tapetes, sofás, livros, espelhos, amor, casamento, morte. Tudo como deve ser, limpo e guardado no recato e na dissimulação. Vanda ama os seus maridos apenas quando estão mortos e inacessíveis. Para mostrar o seu sentimento, estabelece rituais de veneração. Os criados observam, os amigos comentam, os maridos vivos agem. Mas será a afectação de Vanda tão diferente das demais?

Chegar à alma dos ricos (que também a têm, como vício dirá Francisca mais tarde) não é tarefa pequena. Fazê-lo com esta acutilância e humor, é muito raro. É preciso um olhar que capte o verso e o reverso, que encoste os lugares comuns à contradição, que estilhace a superfície, que se perca nos pormenores e na pele. Manoel de Oliveira tem esse olhar. No jardim, por exemplo, em planos diversos, uma abelha pousa sobre uma rosa, a rosa vai perdendo as pétalas, o jardineiro encontra um rato morto num canteiro de flores. Dentro da casa, os cangalheiros encostam o caixão à mesa de bilhar. Ou então a criada a espreitar pela fechadura, um plano falso de onde surge qualquer coisa verdadeira — é quase como bater uma pedra noutra para fazer fogo, será isso o cinema?

Tão espantosa como o filme, terá sido a sua ante-estreia no dia 25 de Fevereiro de 1972, numa sessão solene que esgotou os 1500 lugares do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian e contou com a presença do Presidente da República, Américo Thomaz, e de muitos Ministros. O que é que essa gente terá visto na tela? E, mais importante ainda, o que é que não conseguiu ver?

Cristina Fernandes.

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